Um minuto de silêncio


"Às vezes o melhor conselho possível é: 10 minutos de silêncio".


Ouvi essa frase hoje no podcast "Talvez seja isso" e fiquei pensativa. É engraçado (na verdade é só mais uma da série "eu só acho engraçado...", porque no fim não é muito engraçado e inclusive é um pouco triste) como o ser humano não é muito treinado na arte de se colocar no lugar do outro, A NÃO SER QUE o outro esteja contando uma história e aí explodem sinapses que o fazem apagar mentalmente a história que o outrinho está narrando e ativar o repertório do: EUZINHO.


É o que estou apelidando de EUPATIA. Ação de se colocar na história do outro.


Esse não é um texto repressor (de opressora basta a vida, guerreiros), até porque já pratiquei e ainda pratico a eupatia, confesso. Aproveito esse espaço, inclusive, para me desculpar de todas as histórias que já atravessei, que me vi como protagonista de uma fala que não era minha, que trouxe para a minha realidade algo que era tão somente do locutor. É duro assumir pro nosso eguinho calente, amigos, mas às vezes não é sobre a gente. É só sobre o outro. E sobre ouvir. É sobre abraçar cada palavrinha que o outro confiou a você e digeri-las, lentamente, enquanto o corpo as absorve, tal como uma degustação de vinho: é importante sentir e apreciar.


Eu, chegada numa palestrinha, venho aprendendo que o melhor que posso oferecer é colo e silêncio.


Por onde andam os bons ouvintes? Aqueles que olham no olho, que sabem deixar de lado o celular e também o clamor por protagonismo, que mergulham no olhar do outro e o abraçam com os ouvidos, sem cometer o crime de sequestro da fala?


Poxa, se pochete e polaroid voltaram, conseguimos trazer os bons ouvintes de volta, eles devem ter ficado nos anos 90.


Ser ouvido, com calma e pacientemente, sem euterrupções (os trocadilhos também voltaram!), é um presente, desses difíceis de encontrar, peças raríssimas de brechó.


A verdade é que talvez ninguém precise tanto de conselhos (embora eu ame a arte de pedir and dar), mas sim de serem ouvidas, com afeto e atenção. A gente não precisa sacar do bolso soluções prontas para os problemas de ninguém (até porque raramente elas existem), nem emitir um posicionamento oficial toda vez que estamos em diálogo: a gente só precisa saber ouvir.


Oferecer silêncio é oferecer o nosso amor.

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