Sobre o encantamento


Em entrevista ao podcast “Ilustríssima conversa” (obrigada, amiga Dani, pela indicação), o escritor e historiador Luiz Antonio Simas soltou uma frase que grudou em mim que nem chiclete no tênis, papel higiênico na sola do sapato, mosquito no ouvido. Não me larga mais. Ele disse: “O contrário da vida não é a morte, mas o desencanto”.


Ai. Bateu aí também?

Essa frase bate na gente porque a vida urbana-contemporânea-apressada-maluca-esmagadora trabalha fortemente, com disciplina e afinco, pra varrer o nosso encantamento pra debaixo do armário, que está abarrotado de compromisso, trabalho, conta, louça, um eletrônico que pifou, uma parede com infiltração e um transtorno mental escondido na última gaveta. A gente é engolido por um sistema que suga a nossa energia que nem aspirador de pó. Pra manter essa máquina girando, a tendência natural é a exaustão. E gente exausta perde o encantamento. Quem perde o encantamento, perde a vida.

Falo isso de um lugar de absoluto privilégio, diferente da maior parte da população em que a vida à margem do prazer é naturalizada: sequer há espaço pra reivindicação do deleite, a única missão é sobreviver (que, veja, é muito diferente de viver).


Aqui, do alto das minhas regalias, percebo ainda assim que a renúncia ao encanto é algo que atinge a todos nós – ocupando, é claro, diferentes proporções. A porcentagem que me cabe nesse latifúndio é de olhar à minha volta (bolha de privilegiados como eu) e identificar alguns sinais de alerta: a medicalização excessiva, a glamourização do “agora eu não posso falar”, a super-valorização do cansaço, a idolatria do “não tenho tempo”, a romantização do excesso de atividades, a apologia a dar conta de tudo e o repudio à diversão.

O encantamento purinho, natural, orgânico, encantamento muleque, mesmo, dificilmente vai cair no seu colo no meio de uma quarta-feira de rotina massacrante. Ele precisa de espaço pra acontecer. E esse espaço quem cria somos nós. Tal como abrir espaço na geladeira pras comidas que chegam do supermercado ou no armário pras roupas novas, é preciso destinar algumas prateleiras e cabides pra encaixar o prazer.


Quando falo em prazer, você pode pensar naquele imediato: o interfone que anuncia o ifood, o gole da cerveja, a função soneca, a compra online and outras drogas. Mas aqui, meus caros, o buraco é mais embaixo, como aquele gavetão que mora no subsolo da geladeira destinado aos legumes.


Na vida acelerada que levamos, de prazeres imediatos nossas gavetas já estão cheias. O que nos falta é espaço pra contemplação. O encantamento pela vida, no seu estado mais simples, em forma de arte, natureza, gente, bicho, cheiro, toque, fé.

Criar espaço pro encantamento é estar no agora, porque o encanto não acontece no passado nem mora no futuro. É ser capaz de sentir e observar, mais que pensar e falar. É saber encerrar ciclos e desocupar as gavetas cheias.

Criar espaço pro encantamento é entender que viver intensamente não quer dizer, necessariamente, cometer excessos. É preencher, com amor, os vazios.