Quando a gasolina acaba


Não ligo mais a TV.

Ando desviando de notícias ruins como se fossem buracos. Não me permito cair no desespero: tento me manter de pé, em um corpo saudável e funcional. Penso que continuar esperançosa me faz mais forte. Mas aqui, só entre nós, preciso confessar: eu tô assustada.

Não quero que este texto te assuste. Imagino que você também esteja deitado no chão, desviando de notícia ruim que nem de bala perdida. É, eu sei. Cada manchete é um tiro no estômago. Este texto, pode confiar, não tem nenhuma notícia assustadora (você pode ler sem prender o ar). Inclusive, aproveita pra respirar, agora. Respira bem fundo. Inspira 1,2,3,4; expira 4,3,2,1. Faça algumas vezes até estar aqui, presente, comigo, segurando a minha mãozinha assustada (eu também tô respirando). 1,2,3,4. 4,3.2,1. Este texto é só pra te dizer que, se você está assustado, está tudo bem. Se você está cansado e com medo, também está tudo bem. Completamos um ano sem saber o que é sair despreocupado, espirrar sem ser julgado, não ter medo de morrer ou de perder gente querida. Estamos há um ano velando quase 300 mil mortes, sentindo a dor de cada uma dessas famílias. Estamos há um ano achando que hoje estaríamos melhor e, hoje, vivemos o pior. A sensação é de estar preso em um daqueles pesadelos em que a gente está caindo: estamos há um ano em queda livre, sem enxergar o chão. Tenho saudade de conversar trivialidades, falar sobre medo de panela de pressão ou fobia de palhaço, medo de banheiro de avião ou de porta giratória, medo de qualquer coisa, menos de hospital sem vaga. Debater sobre bolacha ou biscoito, feijão por cima ou por baixo, nescau ou toddy, polêmica de qualquer coisa, menos vacina ou cloroquina. Tenho saudade até de puxar assunto em elevador, ninguém nem comenta mais sobre o tempo: todo mundo sabe que ele está fechado.

"Atenção, estamos atravessando uma área de turbulência", diria o piloto. Em caso de despressurização, coloque a máscara de oxigênio primeiro em você. Nessa turbulência já está todo mundo de máscara, mas nos falta o oxigênio. Estamos mais perto do fim da pandemia que do começo, é verdade. Mais perto do pouso que da decolagem. Só não contávamos que nossa saúde mental faria um pouso forçado, no meio do caminho. Nosso tanque não foi planejado pra durar a viagem toda. A nossa sanidade já está na reserva. Inspira 1,2,3,4, expira 4,3,2,1. Não temos o controle de nada, somente da nossa respiração. Quando a gasolina acaba, é ela quem continua ditando o ritmo do voo.

© 2023 by Salt & Pepper. Proudly created with Wix.com