O refogado da vida


O primeiro passo na cozinha é ele: o refogado. Ele é a base. A constante entre as receitas. Num universo com tantas variáveis quanto a gastronomia, o refogadinho-antes-de-tudo é o único padrão que a gente não gosta de quebrar.


Cada dia mais fã da cozinha e das metáforas que ela me ensina, hoje quando botei o alho e a cebola para dourarem, fiquei ali matutando: qual é o refogado da minha vida?


A parte que precisa estar ali, viva e constante, de forma perene? Aquilo que deve vir antes de tudo, para que seja possível abraçar as escolhas que vierem em seguida?


O refogado da vida é o que verdadeiramente damos valor. Se tudo der errado, ele permanece. É a nossa base, a nossa força. A partir dele que a magia acontece. É a caminha protetora que acolhe a nossa alma.

Percebi que, ao longo dos anos, acumulei uma série de obrigações (estar em dia com a casa arrumada, o whatsapp, a vida social, o trabalho, a louça, a Netflix, os livros, as roupas passadas, o debate político, a costureira, a Marie Kondo, as tampas de tupperware a pauta do Fantástico). A única descoberta possível quando se acumula um monte de "deveres" é: não é possível.


É que nem acumular um monte de coisa na geladeira: alguma vai apodrecer.


O que tenho tentado é descobrir as partes de mim que podem estragar. Deixar ir, mantendo só aquele feijãozinho com arroz que eu sei que me sustenta. O nosso refogado é a chaminha que deve estar sempre acesa, fazendo a gente se sentir criativo, corajoso, vivo. Um bom refogado faz a gente ter fé em que tudo o que vier: vai dar certo.


O refogado da nossa vida é o que faz parte da nossa essência. O resto, é sobra. E o único lugar em que as sobras têm valor é na cozinha.