O amor acontece na ausência


Quando a gente fala em amor, pensa em pessoas juntinhas, grudadinhas, compartilhando uma vida. Amantes debaixo do mesmo teto, amigos de contato frequente, todo mundo próximo e agarrado: isso ilustra o amor no nosso imaginário.

Só que grande parte do amor acontece na distância. O amor dos relacionamentos interrompidos, o daquela amizade distante, o amor platônico, o proibido, o amor por quem já se foi. Tudo isso é amor. A gente acha que, por ele acontecer sem resposta, não é real. É como se a existência do amor só fosse validada pelo outro.

Mas pra ser amor, só precisa ser. O amor não tem protocolo, ele simplesmente acontece. E ele é muito vivo na ausência. É amor do mesmo jeito.

É amor quando no meio do dia eu lembro da minha amiga de infância, e fico rindo, lembrando de alguma história nossa.

É amor quando penso numa viagem que fiz, nas pessoas que conheci, e que não faço ideia por onde andam.

É amor quando relembro algum relacionamento do passado com tanto carinho.

É amor quando sinto saudades de alguém que não falo mais.

É amor quando vejo algo que lembra tanto a minha amiga, que me faz querer estar com ela.

É amor quando penso na minha família, agora distante, por conta da pandemia.

É amor quando lembro uma história que vivi com as minhas amigas.

Durante o meu dia, tantas pessoas me passam pela cabeça, tantas lembranças, coisas que despertam o amor em mim e essas pessoas não fazem ideia de que estão sendo lembradas, pensadas, sentidas. Em tempos de respostas instantâneas, likes, corações e validações imediatas, o amor da lembrança, do sonho e da saudade fica parecendo que não existe.

Nós não podemos negar o amor só porque não o vemos, tocamos, ou sentimos.

Eu, que sou uma grande fã de declarações de amor, vim aqui hoje defender o amor que não precisa de declaração. O amor que existe em você independentemente do contato, da proximidade, do retorno. O amor puro, mesmo, que a gente carrega e não fica o tempo todo falando, reforçando. O amor que mora na nossa cabeça, nas nossas memórias. O amor que diz sobre a gente, sobre a nossa capacidade de amar e sentir. O amor que nos diz sobre as coisas que a gente já viveu, as pessoas que a gente conheceu, os amores que a gente viveu.

O amor que diz que somos um emaranhado de histórias, escolhas, pessoas e caminhos que passaram por nós. Nada ficou pra trás, está tudo em nós. As pessoas que passaram por nossa vida ainda estão aqui.

Eu sou uma mistura de tudo o que eu já amei.

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