Estranha mania de ter fé na vida


Na minha infância, eu adorava brincar de barbie com as minhas primas. Só que às vezes a brincadeira ia pra um rumo que a gente não gostava: a barbie de uma pegava o ken da outra, o ken de uma dava em cima da irmã da outra, a barbie mãe batia na filha... A gente ia perdendo o controle das nossas cagadas (qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência) e depois falava “vamos fingir que foi sonho?”. E assim apagávamos tudo, botando as barbies pra dormir e acordar zeradas: toda aquela confusão (traições, brigas e mentiras – um grande enredo de novela da Record) não havia passado de um sonho.


Às vezes, na pandemia, eu me lembro disso. E dá uma vontade de botar todo mundo pra dormir e falar: “vamos fingir que foi sonho?”. Aí a gente acorda zeradíssimo, abraçando geral e rindo desse grande delírio coletivo da madrugada.


A verdade é que, atualmente, ter fé é um gesto de resistência, quase um ato político. Atire a primeira máscara quem ainda não desesperou, quis pegar a primeira saída de emergência, o primeiro avião (com destino à felicidade) pra desembarcar desse pesadelo. Tem dias em que a gente só quer fingir que foi sonho.


Traçamos pra nós uma vida imaginária perfeita, como a das barbies: quanto menos acontecimentos fora do controle, melhor. Não queremos ter que lidar com desgraça, frustrações ou pesadelos. Evitamos até falar da morte. A sombra nos assusta, é melhor ir caminhando pelo sol. Só que às vezes o tempo fecha. Uma vida perfeita, sem angústia e medo, é só mesmo no mundo das barbies. Aqui, nessa condição humana que nos foi dada, invariavelmente vamos enfrentar tempos de sombra. E essa é a maior sombra coletiva que já enfrentamos.


Ter fé no meio da escuridão é mais difícil. Eu funciono mais ou menos assim: tenho segurança em voar, até que dê a primeira turbulência (aí já imagino quem vai chorar no meu enterro). Tenho segurança em dormir sozinha, até que dê o primeiro barulho (aí já acendo a luz e ligo a TV no Bob Esponja). Tenho fé que estou saudável (até o primeiro espirro). Nossa fé sempre foi testada, mas a pandemia é a maior provação que nossa espiritualidade já teve de passar, em termos coletivos.


“Memento Mori”, frase em latim que diz “lembre-se da morte”, é um lembrete da nossa mortalidade, trazendo consciência pra cada momento, que é único e passageiro. A pandemia é um Memento Mori diário. Exercer a fé com a morte escancarada na nossa frente é pra quem ainda sabe sonhar, mesmo durante o pesadelo. E acreditar que as coisas vão se ajeitar. E que vai passar. Vai passar. Vai passar.


Infelizmente não podemos dormir e acordar zerados, em um mundo curado. Mas podemos sonhar. Sempre. Sonhar, agora, é preciso. E também é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana, sempre.

Quem vive hoje a pandemia carregará pro futuro não só a marca da máscara no rosto, mas a do medo e da esperança, na pele.


E quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida.

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