Despertar


Na jornada da mulher, muito se fala em despertar, que é o processo de abraçar a essência, honrar os instintos, respeitar a sua natureza. É abandonar a carcaça domesticada e dócil que fomos obrigadas a vestir, para habitar um corpo que comporte o tamanho da nossa alma, não importa o quanto ela se expanda.


Você está confortável no seu corpo?


Não falo da aparência, silhueta ou medidas. Pergunto se seu corpo, hoje, veste o número da sua alma. Se ele absorveu a sua chama interna, a pulsação que vibra aí dentro. Se carrega a sua energia vital ou a deixa esquecida em algum canto, tal como a chave do carro que volta e meia insiste em escapar das suas mãos.


Despertar é dar espaço pra quem a gente é, deixando nossa alma flutuar e dançar livremente por esse corpo que a acolhe.


O despertar é bonito, poético, transformador.


O que ninguém conta é que também é um relógio disparando o alarme às 4h da manhã, sem direito à soneca, provocando susto, medo, caos. Uma vez desperta, você não cabe mais na cama que antes adormecia. É um furacão que chega no seu quarto e faz voar pela janela amigos, empregos, relacionamentos, contratos e apartamentos. É uma sirene que ecoa por todos os cantos sinalizando perigo. É ego ferido, com pavor do julgamento e da reprovação externa. É trilha longa, de difícil acesso, esburacada e escorregadia (com paisagem deslumbrante).


O caminho é desafiador, mas a recompensa pra quem resgata a alma foragida é valiosa.


Despertar é dar abrigo a você mesma, abandonando a morada em vontades que não são as suas, sonhos que não são os seus, vidas que não são pra você.


É reconhecer que cabem muitas vidas em uma só, honrando as várias versões de si mesma durante toda a sua existência.


É silenciar o mundo pra ouvir a própria voz.


Despertar é um processo que nunca termina.