Depois da vacina, o chá revelação


Tenho tentado evitar esse assunto (nas salas de bate papo da minha cabeça), porque não é fácil assimilar todo esse furacão que passamos e temos passado no último ano. E acho que ainda vai precisar de um certo distanciamento histórico pra entendermos o que nos tornamos pós-covid. Se você é millennial, geração X, Z, neste momento pouco importa, somos os coronnials, a geração que viu renascer ela mesma. Os baby boomers de nós mesmos.


Não há o que se romantizar quando há tantas mortes envolvidas: que a pandemia tem sido cruel e devastadora, é nossa mais absoluta certeza. Mas sabemos que situações difíceis são como “doulas” de nossas vidas: fazem nascer versões nossas que jamais conheceriam o mundo se não fossem paridas na dificuldade.


Parece que o Caminho de Santiago percorrido entre a sala e a varanda tem sido mesmo transformador para cada um de nós. Ao final de tudo isso, teremos que fazer um chá revelação, desvendando o segredo de quem nos tornamos. Não voarão confetes rosas, nem azuis, apenas revelações sinceras sobre como a vida se modificou: “revelo que me tornei caseiro, vegano e ansioso”.


A minha versão, hoje, é completamente diferente daquela que iniciou março de 2020. Minha relação com a casa, com as pessoas, os animais, meu corpo, a natureza, minha rotina, minhas prioridades: tudo mudou. Não falo aqui de resultados, big numbers, “grandes feitos da quarentena”. Falo do caminho que percorri comigo mesma, sem qualquer obra para ser compartilhada e reverenciada, a não ser minha versão recém-nascida, sequer perceptível a olho nu. Por fora ninguém vê, mas aqui dentro o corpo sabe: mudei.


Tenho, pra mim, que as grandes transformações acontecem no silêncio. E a pandemia foi um silenciador coletivo, um abafamento da nossa sede por controle e ânsia por fuga. Perdemos as nossas anestesiais sociais e só sobrou a gente mesmo, de frente pro espelho manchado de pasta de dente – aliás, você só reparou nesses tempos a mancha que sempre esteve ali.


O nosso “Comer, rezar e amar” não precisou rodar o mundo, foi ali mesmo, na cozinha, de frente pro fogão engordurado e pra pia entupida, que nos vimos renascer. Foi assim, sem direção de arte e iluminação, que nosso roteiro de reviravolta pessoal foi escrito.


Entendemos, afinal, que grandes (r)evoluções não precisam de passaporte, guru espiritual ou ano sabático para acontecerem. Elas nos visitaram dentro de casa.

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