Dando nomes às coisas que a gente sente


Outro dia escutei um podcast da Brene Brown (“Unlocked”) que falava sobre a importância de nos familiarizarmos com os sentimentos desconfortáveis, identificando os nossos padrões de comportamento e normalizando o incômodo. E algo que facilita esse processo é dar nome ao que sentimos. Nesse podcast, ela fala sobre um sentimento específico, apelidado de “FFT”. Fucking First Time. O pânico que sentimos diante de uma situação nova, que vai desde uma aula experimental a um lockdown. Ninguém vai deixar de ter medo ao viver experiências pela primeira vez, mas chamar pelo nome já muda a perspectiva: traz mais compreensão e aceitação.


É tipo quando a gente vai ao médico e tudo acaba sendo diagnosticado como virose. Se a todo sentimento esquisito dermos o nome de “tristeza”, por exemplo, ela se torna a virose dos sentimentos. Dar nome é importante, nos mostra que já é conhecido pelo nosso corpo.


Então eu comecei a listar algumas das emoções não muito legais que sinto, inventando nomes pra cada uma delas:


- FOMIQUITO: o faniquito nervoso que me dá quando estou com fome.


- CAGANEITA: a dor de barriga quando algo inesperado e assustador acontece.


- BLINGOS: blues de domingos. O blues que às vezes me bate quando toca a vinheta do Fantástico, anunciando a marcha fúnebre do fim de semana.


- CANCHAÇO: quando estou cansada e fico muito chata.


- CLAUSTROFOMIA: o pânico irracional de ficar pra sempre presa na pandemia.


- ANSIEDADOS: a angústia quando perco muito tempo no celular.


- APENDENCITE: aperto na barriga quando tenho muita pendência pra resolver.


- ESTROLHO: quando estou estressada e começa a tremer o olho.


- SUVACOSA: sudorese do suvaco quando estou nervosa.


Dar nomes às coisas que sentimos e nos deixam coisados é reconhecer que elas existem, abraçando também as nossas fraquezas. É trazê-las pro vocabulário e entender como o repertório do nosso corpo funciona. Dessa forma, sabemos que todas as emoções passam, e nenhuma, nenhuminha, nos define. Elas vêm e vão - assim como as viroses, aliás.


Quando reconhecemos as reações do nosso corpo, fica mais fácil criar os anticorpos.

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