Aos 32, eu rompi os ligamentos


Um dos principais fenômenos que ocorrem aos trinta e poucos (com margem para mais ou menos, a depender do trânsito você pegou para chegar no retorno de saturno) é o desapego da opinião alheia. 

Não é como se a gente tomasse um shot de Dercy Gonçalves com própolis e limão todo dia pela manhã e mandasse todo mundo à merda logo cedo. A gente ainda quer ser amado. Mas é que as coisas, eventualmente, importam menos.


O que pensam sobre você: importa menos.  Agradar a qualquer custo: importa menos.

Se encaixar em padrões de beleza, comportamento e sucesso: importa menos. 

Às vésperas de completar 32 anos, percebo que o passo mais importante da minha jornada foi romper os ligamentos. Ligar menos. Cada dia mais. 


Desconstruir, pouco a pouco, o constante medo da reprovação. Entender que não preciso (e não devo) desagradar a mim mesma para agradar quem quer que seja. Máscara de oxigênio primeiro em mim, sempre. O amor que recebo do mundo não depende do quanto me abdico de mim. Pelo contrário: quanto mais me amo, mais amor recebo. O universo é generoso com quem se coloca em primeiro plano. 


O interessante é que esse processo de auto-cafuné não nos torna egoístas, ao contrário do que pensam alguns. Quanto mais olho pra mim, mais sou capaz de olhar pro mundo. Olhar para as nossas dores é também compreender as dores do mundo. 


Às vésperas de completar 32 anos, naquela melancolia sorumbática e estrogonoficamente sensível que o inferno astral proporciona, reflito que nossa existência não é para cumprir as expectativas, e sim quebrá-las com louvor. Não há evolução dentro do porto-seguro. As epifanias não acontecem no quentinho, embora algumas ocorram no chuveiro. Há de se chacoalhar, incomodar, questionar, reagir. E sofrer, vez em quando. Permitir-se é navegar por marés congelantes como a rejeição, a frustração, o medo e a reprovação (e não há ninguém tocando violino enquanto você afunda). 


É difícil demais pegar uma rota que ninguém tomou. Não há uma voz sequer que nos tranquilize com "vire à direita". Nos sentimos sozinhos e isolados, quando tudo o que queremos é pertencer.


O problema é que nessa busca incessante por pertencimento, pautamos nossa existência pela forma com que nos enxergam. 


Quando a vida, caros navegantes, é sobre sentir. Experimentar. Se divertir. Errar. Viver. E cantar, sempre que for possível, não ligar pros malvados, perdoar os pecados. Saber que nem tudo é possível, se manter respeitado, pra poder ser amado. 

Nesses meus 32 anos de sonho e de sangue e de América do Sul, meu desejo é pertencer cada dia mais a mim mesma. E seguir ligando menos, cada dia mais. 

E, assim, vamos com Belchior: deixemos de coisa, cuidemos da vida. Se não chega a morte ou coisa parecida. E nos arrasta moço sem ter visto a vida.

© 2023 by Salt & Pepper. Proudly created with Wix.com