A mesa dos adultos


Quando eu era criança e ia aos aniversários dos amiguinhos, olhava para a mesa dos adultos e sentia admiração. Eram seres intocáveis, de roupa alinhada, cabelo penteado. Exalavam confiança, respeito, sobriedade. Eles sabiam o que estavam fazendo. Foram premiados com o Globo de Ouro da Camisa Bem Passada, ganharam o Emmy Awards do Preenchimento de Cheque. Pareciam conversar sobre economia e soletrar as pautas do Jornal Nacional. A mesa dos adultos é um simpósio internacional de excelência em William Bonner e Fátima Bernardes, que serve canapé e drink com azeitona no coffee break. De sobremesa, claro, manjar de coco com calda de ameixa.


(Se você é um adulto com cabeça de vira-lata caramelo como eu, leu manjar de cocô).


A mesa dos adultos tem recheio de ricota. Mata barata sem gritar. Sabe dobrar lençol de elástico. Coleciona pano de prato. Tem cheiro de nozes. Não esquece a luz acesa. Tem dinheiro na carteira.


E eu, aos 32, me pergunto quando vou passar no processo seletivo para sentar com eles. Porque ainda sou a pessoa que às vezes vai trabalhar com a blusa do avesso e eventualmente é flagrada com meleca no nariz.


Como funciona? É um telegrama que chega?


"Boa tarde! A Comissão Julgadora da Mesa dos Adultos acaba de te selecionar para sentar conosco. Aqui calibramos o pneu e não manchamos os lençóis com nescau".


Poxa, eu ainda recebo as convocações que pedem para levar roupa de banho e toalha.


Veja bem: eu me esforço pra ser uma boa adulta. Pago minhas contas. É tanta conta, aliás, que... STOP THE CONTAS! Mas não tem jeito. Ainda engulo comprimido parecendo O exorcista. Faço piada com plural de penne. Finjo costume com DPVAT, IOF e ICMS, mas a única sigla que eu entendo é FDS. Imito o Raul Gil. Passo vergonha em resoluções burocráticas: ontem a moça da renovação do seguro me ligou para falar do valor do prêmio e eu pensei "finalmente fui sorteada em alguma coisa!!!!". Aceno para pessoas que não estavam acenando para mim e disfarço. Erro na quantidade de beijinhos do cumprimento e disfarço. Passo o crachá na hora de entrar em casa. Chamo a professora de mãe.


Às vezes eu me sinto como o Eduardo da música do Legião Urbana: a mesa dos adultos fazendo medicina e falando alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês.


As habilidades de adulta que tenho (ir tirar foto e acabar gravando um vídeo, mandar figurinha errada, só ter selfie feia, ir à restaurante e criticar os preços e não saber usar o tiktok), não parecem agradar à comissão da mesa.


Aos meus amigos adultos com porte de vira-lata caramelo, eu lhes digo: vocês não estão sozinhos. Aguardemos, ansiosos, um adulto que nos adote.

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