A calça de moletom desaparecida e outros mistérios da vida adulta


Há alguns dias não encontro minha calça de moletom. Imagino que ela esteja no simpósio internacional de coisas perdidas, flertando com minhas meias solteiras, tomando umas com meu controle remoto e pisando em umas tampas de caneta.


Não dou notícias da calça de moletom desde que se inaugurou o frio. Seu “último visto” no whatsapp foi ainda no verão. As coisas de casa têm a tendência natural de desaparecerem quando mais precisamos delas, essa é a lei do Universo, embora não esteja registrada no filme “O segredo”Fiz um mandado de busca e apreensão pela casa toda, mas nada foi encontrado: saíram algemados do meu armário uma calça de pijama furada, uma blusa manchada de molho de tomate e uma calça jeans rasgada na virilha. A calça de moletom ainda encontra-se foragida.


E, se uma andorinha só não faz verão, uma calça de moletom faz muita falta no inverno. Enfim a hipocrisia, Aristóteles.


Essa é uma das coisas que dividem os pragmáticos dos dramáticos: os primeiros seguem em frente e encontram outra calça, os últimos choram e lamentam o desaparecimento, recusando veemente qualquer solução que não seja encontrar a calça perdida, ainda que para isso seja preciso passar frio (me encaixo nos últimos, que nesse caso não serão os primeiros).


Não consigo seguir em frente sem identificar as pistas de quem se foi. Sou como uma ex tentando entender os motivos do término, onde foi que eu errei, antes de seguir em frente. Vocês não me verão tão cedo andando com outra calça de moletom na rua.


Pensei até em escrever um filme, como Quatro amigas e um Moletom viajante, mas para isso precisaria de quatro amigas e na pandemia só me restaram duas.


Esse integra alguns dos mistérios da humanidade que circundam a vida dos adultos: coisas somem, outras aparecem, nem tudo faz sentido e o caminho é aceitar.


Se tirar da vida a fatia que parece fazer sentido, cabe em duas tapaué.


Nem tudo há que se entender.

Só nos resta confiar.