Volta, merthiolate


Houve um tempo em que tudo era simples.

Na verdade, não era, mas a gente vivia como em uma novela do Manoel Carlos, desfilando no calçadão, assoviando a nossa felicidade (insira aqui uma bossa nova de fundo) e enterrando os nossos questionamentos.

Não havia espaço para problematização.

Se um problema não pudesse ser tratado com vick, biotônico ou merthiolate, era devidamente ignorado. (Hoje, inclusive, temos toda uma geração fazendo terapia para consertar a ausência de terapia na geração anterior).

Assumir os medos? Só se fosse o de engolir bala soft.

As feridas pareciam ser superficiais e, portanto, facilmente curáveis com merthiolate.

Ó, ignorância, como és bela.

E aí é que a gente cresceu e viu que terapia não é coisa pra maluco, meditação não é exclusiva de monge budista e trauma não dá só em osso.

Hoje vivemos essa grande suruba generalizada de cura (nossa e dos outros). Ora contaminamos o mundo com nossas neuroses, ora agarramos o medo do mundo, mas fato é que estamos mais conscientes. Vivemos uma grande terapia em grupo: enxergamos melhor a nós mesmos, e, consequentemente, ao outro.

Mas tem hora que dá saudades de ser cegueta.

Antes, por exemplo, se uma amiga reclamava de um cara, eu já sacava o repertório de: BOY LIXO, DESGRAÇADO, MANDA PASTAR. Hoje é tudo uma questão de: “Peraí, será que não tem problema com o feminino? Como é a relação com a mãe? Ele tem vênus em que? Ah, esse comportamento vem dos abandonos que ele sofreu na década passada. Bla bla bla”.

Fora os diagnósticos que a gente já tem das amigas: Ih, tá repetindo seu padrão. Ih, seu daddy issues atacou de novo. Ih, essa sua lua tá te fodendo hein.

É reflexão atrás de reflexão, e conclusão que é bom nois num have nunca.

Nada é preto no branco. A vida virou inconclusiva.

Mais justo que seja assim, reconheço. É mais verdadeiro e mais humano.

Mas não é mais leve. Não é mais fácil.

Viver uma jornada com a clareza de quem somos (e por que somos), encarando o mundo de frente e bancando sermos nós mesmos requer coragem.

E arde mais que merthiolate.

© 2023 by Salt & Pepper. Proudly created with Wix.com