Reconstrução

08.05.2019

Há momentos na vida adulta em que a gente se vê ressignificando tudo: quem a gente é, o que a gente pensa, a forma como a gente se relaciona, e a própria... vida. 

 

O divórcio é um deles. Nunca me vi preparada para escrever sobre - talvez por isso o silêncio aqui no blog. Escrever a respeito de qualquer assunto sem levar em consideração o período em que tive que me reconstruir, caquinho por caquinho, me transformando neste ser cheio de remendos que sou hoje (inclusive se eu tossir pode ser que estoure algum ponto ou voe alguma frase motivacional da minha terapeuta), seria fingir que a vida é igualzinha a do Instagram: cheia de textão bonito e sorrisos congelados, que muitas vezes escondem o grande soco na face que a vida pode ser. 

 

Este texto não tem como intuito falar sobre a separação em si, uma vez que envolve a privacidade de outro serzinho pelo qual nutro todo o amor, respeito e admiração do mundo ("De todo o amor que eu tenho, metade foi tu que me deu"). Mas, sim, falar sobre os efeitos causados em mim, e no ato de reconstruir a minha vida. 

 

Este texto também é para você, que talvez esteja passando por alguma catarse na vida. Pega na minha mãozinha. Respira fundo. Vai ficar tudo bem. 

 

O divórcio foi definitivamente o momento mais difícil que já vivi. Me vi sem chão, sem perspectiva de felicidade-próxima, sem qualquer estrutura emocional pra recomeçar. Lembro que, assim que saí de casa, houve um domingo* em que deitei no chão e chorei sem hora pra acabar, num grande open bar de lágrima e coriza, em que eu olhava pro buraco que havia cavado na minha própria vida sem a menor clareza se sairia dali um dia. 

 

*se domingo já é um dia escroto, os decibéis de escrotidão que ele pode alcançar assim que você se separa é algo a ser estudado pelos apresentadores do Fantástico. DOMINGOS FUDIDOS: mito ou realidade? Quantos dias cabem em apenas um domingo de merda? 

 

O lance é que quando a gente está passando por algo tenebroso, enxerga a vida com astigmatismo emocional, sem conseguir avistar, nem de longe, uma luzinha na escuridão. 

 

Mas a luz aparece. A vida, essa safadinha, ela dá conta do que a gente não dá. Ela carrega a gente no colo, muda as configurações, pinta novos desenhos, faz de tudo para que a gente consiga, pouco a pouco, se reconstruir. "Tijolo com tijolo num desenho mágico, seus olhos embotados de silêncio e lágrima". 

 

E assim a vida vai indo. A gente vai se adaptando a nova realidade que é: estar sozinha, sozinha para caralho. Sozinha porque quando acaba o papel higiênico no banheiro, é tu mesma que vai buscar. Sozinha porque quando falta alguma coisa do supermercado, é contigo mesma que tu vai brigar. Sozinha porque quando você fica doente, é vocêzinha que vai se cuidar. Sozinha porque se entra um bicho no teu quarto, é tu e tuzinha que vão ter que matar. Sozinha porque é você que cozinha, e vocêzona que lava a louça. Sozinha porque você vai comprar um cacho de banana e ele vai estragar (a semana de quem mora sozinho pode ser resumida a duas bananas de qualidade e cinco bananas pretas). Sozinha porque a outra metade do mamão é sua também. 

 

Até que se crie uma nova rotina, a gente fica num limbo, num espaço de tempo em que você não é, ainda, um solteiro convicto, mas também não está mais acompanhado: você é, portanto, um adulto em desenvolvimento. Cada simples momentinho da nova rotina vira desafio. Você sai do trabalho e a vontade é de ligar para todos os recém-divorciados do Brasil e perguntar o que eles estão fazendo. Há de ter algum tipo de convenção nacional que reúna os adultos em desenvolvimento pós trabalho. O que eles fazem? Estão resolvendo coisas? Supermercado, será? Ou solteiro que se preze vai é tomar uma gelada? O que eles comem? Adultos em desenvolvimento também podem fazer refeições gostosas e demoradas sozinhos ou o código de ética do recém-solitário diz que sozinho só se faz refeição rápida e sem burocracia?

 

É uma surra de dúvidas que passam pela sua cabeça o tempo todo: será que tô vivendo certo? Sou um adulto ou um impostor? Até que, aos pouquinhos, você vai se reconstruindo, juntando os pedacinhos de você que ficaram espalhados em consultórios de psicanálise, cantinhos de meditação, leituras de tarô, rodadas de búzios, intérpretes de mapa astral, botecos, sambas, e toda a terapia alternativa que você buscou pra se reencontrar com você.


De repente, você renasce. Tal como um pintinho saindo da casca, todo estrupiado, baleado, ferido, niguçado por dentro e tretado por fora, meio vesgo e capenga, você nasce de novo. Cheio de cicatriz, de dores engolidas, batalhas travadas e o caminho até aqui só você sabe o tanto que foi tortuoso. Mas você é mais você do que jamais foi um dia. Você se transforma em um ser humano mais forte, mais verdadeiro e mais interessante. Você se apaixona por você mesmo.  

 

Você percebe que dentro de você morava um soldadinho de chumbo, capaz de lutar por você mesma até quando você achou que não ia dar conta. 

 

Você tem muito orgulho de quem você se transformou. 

Você começa a enxergar a vida com cores, novamente.

(mas as bananas continuam pretas).

 

 

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