Notas sobre a Copa

10.07.2018

 1. Copa é Natal. Cada jogo do Brasil vinha acompanhado de questionamentos viscerais e profundos, capazes de fortalecer ou destruir relações: onde ver? Com quem ver? A Copa mexe tanto com nossos sentimentos, que bate um leve espírito natalino antecipado. Copa é tão Natal, que também é 100% Jesus. 


2. Copa é carnaval. Tem fantasia, cerveja, amigos e doses de insanidade. Só que no Carnacopa a coisa fica séria, porque é só de 4 em 4 anos. Não dá pra deixar pra 2022 o que você pode beber hoje. 


3. Canarinho Pistola é a imagem da Copa 2018. Ele representa você, brasileiro FULÊRO E PUTO DA VIDA, mas que segue dançando porque não é obrigado a abaixar a cabeça. Pistola, obrigada por ser gente como a gente. Se na vitória somos pistola, na derrota somos pistola até morrer. 


4. Derrota. Tivemos de aprender a lidar com ela. Não a derrota vexaminosa do 7x1, mas aquela que vem com gosto amargo de que o jogo poderia ter ser sido nosso, de que poderia ter dado certo, de que "se aquela bola tivesse entrado", e se, e se, e se. É o que me pergunto até hoje, ainda numa síndrome de por-que-caralhos-não-deu-certo-quando-obviamente-o-hexa-era-nosso. 

 

5. Fizemos bonito, brasileiros. O torcedor-raiz soube torcer de verdade. Foi a primeira vez que vi o Brasil vibrando pela seleção com a mesma raça que torce por seus clubes. Com grito de torcida, garra e surra de fé. Brasileiro perde de 7x1, mas não perde a fé. 

 

6. Já o torcedor nutella perdeu tempo xingando os jogadores. Eles são humanos, minha gente. E dinheiro, acredite você, não blinda ninguém de depressão, culpa ou sensação de fracasso. Somos todos seres-humaninhos crescendo e aprendendo nessa jornada louca que é a vida. Eu, você, Fernandinho e Neymar. Cobrar é normal. Faz parte do jogo. Mas xingar, tecer comentários maldosos e até racistas? Jogo sujo. E baixo. A Copa não é pra você. 

 

7. A Copa, inclusive, nos lembra da nossa própria humanidade. Lembra que, assim como os jogadores, também temos dias ruins. Também temos falta de sorte. Também sabemos que poderíamos ter feito melhor, mas não conseguimos, sabe-se lá por que. Tem dia que não é pra ser nosso.

 

8. Não é só futebol. Aprendemos, mais uma vez, que Copa não é só futebol. É a vida, do jeitinho que ela é: imprevisível e abusada. Dias bons, dias ruins. Ora cumpre os planos, ora foge do previsto. Tem merecimento, mas também tem acaso. A vida e a Copa são safadas. 

 

(9. Só que na vida, falta árbitro de vídeo. Bom seria consultar o VAR daquela noite em que você não lembra nem como chegou na grande área da sua casa.)

 

10. O hexa não veio. De novo. A seleção brasileira perdeu a Copa, mas os Javalis Selvagens ganharam a vida. E nós seguimos vivendo, entre más e boas notícias, lembrando que não há tristeza que seja para sempre, nem felicidade que nunca se acabe.

2022 tem mais. 

 

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