As coisas simples da vida


Minha avó teve doze filhos.

Meu pai, onze irmãos.

Todos nascidos em Santa Rosa dos Dourados, Minas Gerais. Se colocar no google, verás que um filho de Santa Rosa não foge à luta: são 300 habitantes. O filme "300", inclusive, é baseado na história da cidade. Rei Leônidas era prefeito de lá.

A verdade é que minha avó criou mesmo doze guerreiros: todos nascidos na roça, infância simples, cada um com uma história de batalha pra contar.

A juventude deles, os doze, certamente daria livro, filme, série na Netflix. Nunca poderei escrever a luta deles com conhecimento de causa, porque só conheço os causos. Não trago em minha pele as marcas e lembranças de uma época não vivida por mim. Mas tenho lugar de fala pra contar dos encontros de família e das marquinhas que ficam, hoje, em mim.

Ir pra Minas Gerais significa me lembrar de que o melhor da vida está nas coisas simples. Às vezes procuramos a felicidade em roupas, dinheiro, status, mas descobrimos que ela mora ali, no meio do mato, com família, cerveja e violão.

Não precisamos de muito para ser feliz.

A receita mineira, inclusive, é simples: junte frango ensopado com arroz, tutu, abóbora e vualá! Feliz.

De amarga, a vida simples só tem o jiló.

Viver pode ser tão gostoso.

Não nos esqueçamos disso.

Nos encontros de família, aliás, a gente esquece a fatura do cartão de crédito, e concentra na fartura da comida.

Esquece a pressão da vida, e pressiona quem está sem copo.

Esquece os problemas, e problematiza quem é que "vai ficar por último na fila do frango e só vai pegar pescoço e pé".

Esquece as porradas que a vida dá, e bate palma pro cantor da roda.

Esquece a correria, e corre pra empurrar alguém na piscina.

Esquece o carro, e batuca o cajon.

Esquece o toque do telefone, e toca violão.

Ali, no meio do mato, as crianças também não precisam de muito. Observando as pequenininhas, vi que uma brincava com três copos d'água. A outra veio pegar um deles, mas foi alertada de que "o pão de queijo é esse daqui, ó"- apontando pro outro copo. As crianças, minha gente, só precisam de afeto e de três copinhos de água. A imaginação pode as levar pra onde quiserem.

Nós, adultos, temos a missão de ensinar (e aprender, constantemente) que os verdadeiros prazeres da vida estão ao nosso alcance, nas coisas pequenas que nos cercam.

Bora mineirizar a vida e descomplicar.

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