Medo

29.01.2018

 

Escrevo este texto no avião, enquanto a moça ao lado sofre um ataque de pânico por medo de voar. Seu marido segura sua mão, ao tempo em que ela, pálida, chora olhando pro vazio. Minha vontade é de pegar a outra mão, que recai sobre o meu lado, no corredor, e dizer: vai ficar tudo bem.

 

Por um instante, agradeci a Deus por não ser refém deste medo. Embora sofra com tantos outros, o medo de voar (ainda?) não me paralisa. Cobro-me tanto não ter medo de nada (mas tenho medo de tanto!), que pela primeira vez encarei o medo com gratidão. Obrigada, Deus, por me permitir voar em paz.

 

Na semana anterior, entretanto, me peguei chorando e tremendo ao tentar dar uma cambalhota. Ah, o medo. Esse pequeno monstrinho que nos fragiliza tanto. Medo de cambalhota. Medo de elevador. Medo de galinha. Medo de mergulho. Medo de altura. Medo de panela de pressão. Medo do Sabin. Medo de ficar doida. Medo de derramar vinho nas pessoas. Medo de perder as pessoas. 

 

Quando mergulhei de cilindro pela primeira vez, em Fernando de Noronha, achei que fosse morrer sem ar e virar isca de peixe. Tentava respirar e me inflar como um baiacu, mas me sentia como uma sardinha indefesa, dentro de um oceano repleto de  não-oxigênio. Voltei pro barco tremendo, em choque. “Frio, Mariana?”, perguntou o instrutor. “Sim”.

 

Pior do que o medo em si, é a coragem de assumi-lo. Li um texto da Martha Medeiros uma vez que muito me aliviou. Ela dizia que conseguir falar “não” também é um ato de coragem. Pois veja bem que corajosa serei ao negar o próximo mergulho, ainda que isso implique a decepção geral da nação e a falta do check na lista de must do da vida.

 

Embora seja uma cagona na arte de ter medo de me machucar/morrer/e principalmente: medo de ter medo, vim com o pote da coragem cheio quando o assunto é o coração. “Olha, uma emoção diferente, vou me jogar”. Às vezes bato a cabeça, perco o ar (como no mergulho), o coração sangra, a barriga sente frio. Mas é pelas emoções que me sinto viva.

 

Dançar. Assistir a um drama. Ouvir música que toca o coração. Ler poesia. Encarar novas ideias. Fazer coisas diferentes. Aprender. Ensinar. Conhecer gente nova. Frequentar lugares diferentes. Mudar de ares. Mudar de rota. Mudar de vida.

 

Neste voo, rumo a Santiago, penso em quantos medos nós, seres humanos, compartilhamos. Assim como o sofrimento, o medo é parte de todos nós, que estamos vivos. Por isso, hoje, empoderada pelo não-medo de voar e estasiada com a prestes chegada a um lugar novo, quero dizer a você , que sente medo (seja de mudar, falhar, recomeçar ou voar): vai ficar tudo bem.

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