Devedores S.A


Não sei vocês, mas meu nome já foi pro SERASA da vida faz tempo. Devo, não nego, me culpo sempre que puder.


Se você ainda não chegou no cheque especial da existência humana, gostaria de te conhecer, neo-Buda.


Porque comigo a auto-cobrança é diária e à vista.


Tem o boleto da Netflix, que joga na minha cara as séries que gostaria de assistir e tô devendo. A dívida da leitura, que me acusa de estar lendo bem menos que deveria. O IPVA (Índice de Pia Vergonhosamente Abarrotada) que chega todo dia. O DARF (Dietas Arruinadas por Rotinas Fudidas), que é cobrado mensalmente pelo Senhor Barriga. Tem também a conta de telefone, que chega no meio de madrugadas frias só pra me lembrar das mensagens de whatsapp que esqueci de responder. A conta do gás, que vem sempre que não faço exercícios por motivos de: acabou o (meu) gás.


O dia a dia do cidadão do século XXI é dominado por pequenos recados do universo que dizem: EI, CÊ TÁ ATRASADO NO ALUGUEL DA VIDA, CARA.


(Quando não é o universo, é aquele infeliz que te diz MAS VOCÊ NUNCA VIU GAME OF THRONES?)


Vida, passa no crédito porque eu não tô dando conta. Já fui parar no SPC (Sempre Procrastinando Coisas).


Se você está com a leitura em dia, netflix zerado, vida social ativa, corpo sarado e pia limpa, na boa, me diz que cê não tá trepando?


Eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, é fodida e é fodida.

Esse fenômeno dos tempos modernos, conhecido como rodrigohilbertização (ato ou efeito de se cobrar por existir alguém mais produtivo que você) lima silenciosamente a nossa auto-estima, machuca nosso amor próprio e faz com que nos sintamos pequenos pedacinhos de cocô orbitando na Terra.


Sugiro que a gente pare de se cobrar tanto, amigos devedores. Porque o que importa mesmo é estar em dia com a felicidade.

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