O passado é uma roupa que não nos serve mais

Primeiro a gente cresce acreditando que nossos pais são super-heróis, até percebermos que eles são humanos também. Depois a gente parte pra vida adulta acreditando que somos perfeitos, até que a primeira oportunidade traga à tona o tamanho da imperfeição que carregamos conosco. Vamos amadurecendo e percebendo que os cuspes que jogamos pra cima lentamente voltam e caem sobre a nossa testa. Cometemos os mesmos erros pelos quais julgamos os outros, percebemos que dizer "eu nunca" só serve pra nos amarrar numa redoma de culpa e frustração, porque "nunca" é relativo e em cada situação cabe uma infinitude de "sempre". Como diria Belchior (❤️), "o passado é uma roupa que não nos serve mais". E é assim dia após dia. É uma viagem que alimenta nossa alma e engorda nossa vida, uma paixão que emagrece nossa sensatez, um sufoco que nos traz jejum de coerência. Dessa forma, vamos perdendo todas as roupas que nos cabiam. Reformulamos nosso guarda-roupas de acordo com o que cada experiência nos faz vestir. Afirmar verdades absolutas sobre nós mesmos é o mais profundo erro que podemos cometer, porque somos errantes, mutáveis, imperfeitos e um pouco loucos. Afirmar verdades absolutas sobre os outros é um erro pior ainda, carregado de julgamento e hipocrisia. O erro do outro hoje pode ser o seu de amanhã. Não aponte dedos, não julgue, não seja fiscal do deslize alheio: a vida é um caminho imprevisível e cheio de provações. Volta e meia seremos irracionais, insensatos e inconsequentes.

Pra falar novamente da poesia de Belchior (❤️), não queremos o que a cabeça pensa, mas sim o que a alma deseja. Nosso coração selvagem tem essa pressa de viver.  

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