O menino-gari


Ontem foi um daqueles dias em que o universo manda recado pra gente dizendo: ei, fica tranquila, o mundo ainda tem salvação.


Universo, não precisa ficar ansioso, saiba que sua mensagem foi visualizada e está sendo compartilhada com todos os (três) leitores que ainda acreditam num mundo melhor. (E pra quem não acredita, repense).


Logo cedo, da janela da minha aula de pilates, vi brincando no parquinho uma criança toda vestida de gari. Ele não estava de Batman, de Wolverine ou de Superman. Ele estava de boné laranja, colete verde, roupa laranja e fitas fluorescentes pelo corpo.


Sua fantasia de super-herói é um gari.


E quer melhor herói que esse, que trabalha duramente, muitas vezes de forma vulnerável e corajosa, a serviço de todos nós? O menino-gari sabe o que faz.


Fiquei apaixonada por ele. Quando a aula terminou, fui até o parquinho entender de onde surgiu aquela roupa. Quem estava com ele me explicou que ele é completamente apaixonado pelos garis, então mandaram fazer essa "fantasia" pra ele.


Ele brinca no parque todos os dias vestido assim. Imagino que sempre acorde com a mesma empolgação de adulto em dia de sexta-feira pra vestir logo seu uniforme-de-parquinho.


Não é a coisa mais linda? Observar a pureza da criança, que leva a sério as suas paixões e não liga pro que os outros vão dizer?


O menino-gari me lembrou de como costumávamos ser quando crianças: sem nenhum tipo de preconceito, encanação ou vergonha por seguirmos um caminho diferente dos demais. E daí que está todo mundo de roupa normal no parquinho? E daí que eu nem sou tão fã assim do Superman? Que saudade desse olhar puro, desprendido de todo o julgamento que vamos, sabe-se lá por que, adquirindo na vida adulta.


Lembro que há um tempo alguma criança fez sua festa de aniversário com o tema de gari, também por ser apaixonada por esse universo. A admiração que as crianças sentem pelos garis não é novidade, o novo pra mim foi ver isso de perto, numa surra matinal pela janela, dizendo: “a vida é o que acontece enquanto esse pequeno-gari balança no parquinho e você acumula preocupações sem sentido na sua cabeça”.


Senhores adultos, vamos lembrar que sonho é sonho, não importa o que os outros digam. Se o seu sonho parece não fazer muito sentido pras outras pessoas, paciência, o sonho é seu e não delas (e sentido mesmo nem a vida faz). Parece que o sentimento que mais acompanha nossa vida adulta é o medo de errar, a vergonha do que os outros vão pensar, a eterna dívida que a gente tem com a humanidade em mostrar que estamos conseguindo seguir a manada.


Senhores adultos, tá tudo bem. Tá tudo bem se você caminhar numa direção contrária dos seus amigos, tá tudo bem se você não tem uma vida convencional, tá tudo bem se sua cabeça ansiosa te perturba enquanto parece estar todo mundo normal.


Não tem ninguém normal, não. Quem parece normal é só porque não tem coragem de por seu gari pra fora.

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