Alguns relatos de quem é adulta, mas nem tanto


Prestes a completar vinte e oito anos, comecei a pensar sobre a adulta que (às vezes) sou. Porque os vinte e tantos, acho, são assim: uma mistura muito louca da adulta que você se tornou, com resquícios dos vinte e poucos que você nunca largou.

É um eterno deleite de quem toma vinho e catuaba.

É o doce prazer de comer doritos e presunto de parma.

A incrível admiração por museus e McDonalds.

A estranha mania de curtir Molejo e Belchior.

A curiosa sensação de trabalhar e gostar de cama elástica.

O paradoxo de ter teipeuérs e não ter tampas.

Eu, por exemplo, fui promovida na vida adulta à Diretora Executiva de Gôndolas e Alimentos: quem faz compras de supermercado aqui em casa sou eu.

Mas, quando estou no supermercado, não sei escolher frutas. Dou umas apalpadas fingindo que sei o que estou fazendo, mas no fundo só estou olhando nos olhos do mamão e perguntando: eaí, cara, bora nessa?

A vida adulta chega de repente, não dando tempo de fazer curso de Introdução à Escolha das Frutas, nem o módulo básico de Como Pagar Boletos Sem Chorar.

Descobri que virei adulta quando parei de confundir polenta com batata frita. Aí, meu amigo, foi um caminho sem volta: comecei a gostar de aspargo, apreciar jazz, ser fã de sopa e curtir Globo News.

Mas a vida aos 28 anos é que nem o ensaio sensual do Harry Potter, uma confusão de sentimentos.

Sou casada

Mas me escondo no armário pra dar susto no marido.

Sou madura

Mas às vezes queria colar meus dedos com cola.

Sou responsável

Mas já matei algumas plantas.

Sou dedicada Mas limpo a casa com papel toalha.

Sou investidora

Mas quando alguém fala "tesouro direto", imagino um baú com moedas (ou o Kiko).

Sou engajada

Mas quando alguém fala "ministro da Fazenda", imagino um político de chapéu no cavalo

(ou quando alguém fala "asilo político" e eu imagino um lar de velhinhos com o Lula).

São apenas alguns relatos de quem é adulta, mas nem tanto.

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