Querido diário

Esses dias me deu a louca e eu comecei a rever os meus diários de quando era criança. Sim, tive muitos. Conversava com eles como se fossem amigos, psicólogos, conselheiros. Acho que isso me economizou anos de terapia.


Tenho uma relação de amor com diários: os meus e os dos outros. Meu livro preferido da infância era o Diário de Anne Frank. Sempre achei incrível mergulhar nesse universo tão pessoal e verdadeiro. Dentro de um diário, não há a interferência do narrador-observador. É o escritor, puro, entregue. Nu.

Quando li o trecho acima escrito por mim, há pelo menos quinze anos, confesso que fiquei com os olhos marejados (alô, Unidos da Tensão Pré-Menstrual!). "Me serviu de apoio e consolo nas horas mais difíceis": tudo bem que as horas mais difíceis deviam ser quando não tinha Educação Física no dia, mas enfim, está valendo pela sinceridade e, principalmente, pela entrega.

Já no trecho acima, vemos que no auge dos seus onze anos a pequena Mariana dava uma surra de auto-confiança na Mariana atual. Além de já saber que um rostinho bonito não substitui a simpatia do coração.


Mas, para provar que eu não era a única de atitude, segue pedido oficial de namoro recebido na mesma época (e que, apesar de recusado, guardei comigo no diário):

É claro que o rapaz que assina o bilhete acima não é o mesmo que eu gostaria de pedir em naOmoro, pra provar que a vida é sacana comigo since 1999. O meu "não" lavrado em cartório e assinado por duas testemunhas foi enviado como resposta num prazo de cinco dias úteis após o recebimento do pedido.

Já no trecho acima, vemos que meus planos eram sólidos e consistentes. "Não ser tímida"?


XABLAU! SEUS DESEJOS FORAM ATENDIDOS!

Agora vamos focar no que realmente importa: PELO AMOR DE DEUS, QUE ENTRE UM MENINO BONITO. Hahaha que fase, amigos.


Quanto a ser feliz, acho que o diário me ajudou nessa missão. Está aí um plano que deu certo. Se pudesse voltar no tempo, diria pra pequena Mariana que todas as suas preocupações não faziam muito sentido, que ela poderia simplesmente viver e relaxar. Que tudo passa. Inclusive as paixonites da infância (que ocupam cerca de 75% dos diários de Mariana, a Apaixonada).


Diria pra pequena Mariana que com o tempo ela iria desencanar, ser mais despreocupada, mais leve.


Diria também que algumas coisas nunca mudam.


TCHAU!

(07 de outubro de 2016)

© 2023 by Salt & Pepper. Proudly created with Wix.com