Estado Desgourmetizador

25.02.2016

No último fim de semana tive um encontro de família em Minas Gerais. A única parte ruim de ir pro interior de Minas é viajar de carro, por alguns episódios em que já protagonizei O Exorcista vomitando no banco traseiro.

 

A parte boa, além de rever a família, é que em Minas ninguém passa fome, nem sede: tem sempre alguém pra te abastecer com pãozindequeij e cerveja.

 

Apesar de ter nascido em BH, estou fora de Minas há tempo suficiente pra ganhar o selo de gringa no território mineiro: já posso observá-lo com imparcialidade (tá bom, só um tiquin) e dizer com toda a propriedade do mundo: ô terrinha boa, sô.

 

Ir pra Minas é se desgourmetizar. É apreciar um torresminho, uma linguiça, um feijão tropeiro – e que se dane a dieta. Lá risoto ainda é mexido, finger food é lambisquin, cestinha de ave ainda é empadinha de frango e, graças a Deus, cone de frango a bechamel ainda é coxinha.

 

E que delícia é essa vida mais simples.

 

É onde a pipoca de rua tem mais valor que a pipoca gourmet; o picolé ainda é picolé, não virou paleta; o sorvete é sorvete, tem nada de gelato; e o food truck ainda é aquele dogão de rua maravilhoso.

 

É onde a cerveja é cerveja, basta estar gelada. Não precisa de cerveja especial, especial é estar com a família.


É onde o copo de cristal não é importante, importante é o copo do amigo estar cheio.

 

Aliás, Minas tem essa coisa bacana de que mais importante que se servir é servir o outro. Não tem muito aquela selva da “cidade grande”, em que é cada um por si, vence o melhor, o último gole da garrafa é meu.

 

Meu coração é de Brasília. Sempre vai ser. Aliás, ainda devo pro universo um texto sobre essa cidade que tão bem me acolheu e me faz feliz. Mas reconheço o tanto que temos, todos, que levar a vida de um jeitinho mais mineirês.

 

Dar valor à simplicidade.

 

Convidar as pessoas pras nossas casas querendo que elas realmente apareçam. E, quando elas aparecerem, recebê-las com fartura de comida, bebida, carinho e amor. Sem frufru. Sem gourmetização. De coração aberto e pés descalços.

 

Saber a hora de comer quieto.

 

Falar menos e ouvir mais.

 

E coisar uns trem de vez em quando.

 

 

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