Crônica da vida privada

21.01.2016

 

Ou apenas: privada. Se é pra falar das coisas engraçadas do início de uma ~vida a dois~, vamos começar por ela, a polêmica, a impávida, a retumbante: a privada.

 

Quando o assunto é casamento, muito se fala sobre a divisão de bens, de espaço, de atenções. Falar sobre dividir privada ninguém quer, né?

Mas todo casamento é em regime de comunhão total de privada.

 

Nesse regime, algumas cláusulas merecem atenção especial:


Não colocarás o rolo do papel higiênico com o papel saindo por baixo.


Não deixarás de investir em papel higiênico.


Esse último item é especialmente importante pra mim, que, modéstia a parte, sempre utilizei papel higiênico de grife. No meu banheiro, só entrava Gianecchini.

 

Depois que casei, vinha notando que o papel higiênico estava diferente: não sei se era ele ou se era eu, mas estávamos sem química. O papel parecia áspero, seco, sem vida.

 

Vinha sofrendo calada, até que um dia acabou o papel e eu tive que fazer aquela peregrinação até o tesouro secreto de papéis higiênicos. Foi quando olhei no armário e o vi. O papel higiênico se chamava Cotton.


COTTON?

 

Cadê Gianecchini? Cadê Mordomo? QUEM COMPRA COTTON, MEU DEUS?

 

Pabblo estava do meu lado e deu uma risadinha sapeca, típica de quem estava comprando Cotton há tempos.


Eu não sabia nem que essa marca existia! E de Cotton, meus amigos, já adianto: ele não tem nada. Mais justo que se chamasse Áspperon.

Foi então que resolvi pesquisar na internet (o+melhor+papel+higiênico+do+mundo+comprar) e descobri que são infinitas marcas, cada uma com um nome representativo:

 

BOM PREÇO – o papel higiênico dos murrinhas, né? Quer dizer, até na hora de se limpar o cara quer economizar.

 

CARINHO PLUS – o papel higiênico dos carentes. O único sinal de afeto que você recebeu ultimamente.

 

PERSONAL – o papel higiênico dos altetas! É só enfiar um rolo em cada canela e já pode dizer que tá malhando com personal.

 

NEVE– o preferido no inverno. Macio como a neve, perfumado como o campo, suave como o vento.

 

MIRAFIORI – parece nome de perfume da Boticário, mas é só papel higiênico mesmo. Ele é da natureza, das flores, ele é selvagem. Como Mirafiori, você limpa até a sua flora intestinal.

 

DUALLETE ULTRA – o papel higiênico gourmetizado. O cara tem que enrolar a língua pra pronunciar seu nome. Duallete: o papel pra quem fala toilette.

 

Se você lê a descrição de cada um deles, pensa: isso não é um papel, é um gentleman! Soft. Cheiroso. Delicado. Macio. Sofisticado.

 

Aí eu entendi tudo, né? Pabblo tava era com medo de eu me apaixonar por um papel higiênico.

 

Pabblo, não se preocupe. Te amarei na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na folha dupla e na folha simples.

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