Estado intermediário

Enquanto termino de digitar uma mensagem no whatsapp, lembro que tenho que responder um e-mail. Interrompo a mensagem, abro a internet, escrevo o e-mail, alguém puxa assunto comigo, não presto muita atenção, mas desconcentro do e-mail e puxo assunto com alguém, esse alguém está pensando em outra coisa enquanto falo com ele, desisto de sua atenção e volto pro e-mail, o telefone toca, digito e falo, embora não saiba exatamente o que estejam falando comigo, nem o que estou digitando.


Estamos todos em constante estado intermediário.


Nem lá, nem cá. Não foco nisso, nem naquilo. Estou aqui, mas você também pode me encontrar lá. Quando estou lá, fico pensando que deveria estar aqui.


A sensação é que nunca estamos no lugar certo, fazendo a coisa certa. Tentamos fazer tudo que julgamos “necessário” ao mesmo tempo, e ficamos sempre com a pulguinha atrás da orelha nos gritando: ei, vem fazer outra coisa, vem.


Nossa vida é um monte de abas abertas, algumas esquecidas, outras largadas pela metade, outras iniciadas sem motivo: todas gritam por atenção, clamam por socorro.


Vivemos um momento de tanta informação, que raridade é topar com alguém que esteja 100% entregue a você, de corpo e alma, sem pensamentos dispersos, sem distrações momentâneas. Alguém que olhe nos seus olhos de verdade, sem aquele olhar vazio de quem está com a cabeça a mil, pensando nos seus problemas, suas tarefas futuras, seu celular.


Se entregar virou piegas, brega. Chique é ser blasé, é ser “multifuncional”.


Temos o desafio de abandonar o estado intermediário e começar a viver plenamente o agora, sem culpa, sem pensamentos mil, com entrega, de mente aberta e alma disponível.


Ir para uma festa de aniversário e deixar o celular de lado. Falar ao telefone sem fazer algo no computador. Viajar e viver o momento, deixando a foto pra lá. Escutar o problema de alguém, sem imediatamente pensar no seu. Desacelerar o pensamento. Viver uma coisa de cada vez.


Se isso melhoraria nossa relação com as pessoas? Muito. Mas melhoraria, sobretudo, a relação com aquele que já anda estressado e ansioso: você.

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