Autor desconhecido

17.07.2014

“A vida não é curta, você é que fica morto tempo demais.” “Seja sempre você mesmo. A menos que você possa ser o Batman. Daí, seja sempre o Batman!” “O problema das mentes fechadas é que elas geralmente vêm acompanhadas de uma boca aberta.” “Só de pensar que você viria hoje, fiquei feliz desde ontem.” “Tá fazendo tanto calor, mas tanto calor, que galinha tá comendo milho e cagando pipoca.”

 

As citações acima são de autores desconhecidos – com exceção da última, que é da Clarice Lispector. Sempre que vejo circulando uma frase de autor desconhecido, me pergunto se ele não quis se identificar ou se esqueceram de atribuir a ele a autoria da citação.

 

Os autores desconhecidos passam pela Terra sem glamour. Não foram famosos em vida, nem depois da morte. Vivem no anonimato, sem serem reconhecidos. Não distribuem autógrafos na rua, nem saem no EGO ajeitando o biquini. Estariam eles vivos? Se sim, por que não botam logo e boca no trombone e dizem: “ei, esta frase é minha!”. E se já se foram, seus parentes os reconhecem em suas palavras? “Essa frase é a cara do Osvaldo”.

 

Pensando nisso, cheguei à (poética) conclusão que somos autores desconhecidos na nossa própria existência. Rabiscamos escolhas, soletramos desejos e escrevemos história – tudo no anonimato. Somos aquilo que ninguém vê, como já disse Martha Medeiros – que teve a sorte de não ser autora desconhecida.

 

No livro de nossas vidas, entram os parágrafos que se repetem, as palavras esquecidas, os capítulos felizes e as linhas tortas, porém necessárias. Se não viramos Picasso ou Shakespeare, poucos sabem de nossa breve existência.

 

Nós, os autores desconhecidos, frequentemente nos perguntamos: o que viemos fazer aqui? O que eu, esta pequena parte de um todo gigantesco, tenho de missão? Será que vamos conseguir deixar alguma marquinha nesse universo? Ou passaremos em branco em nossa vida anônima?

 

Não sei.

 

Sei que o nosso melhor acontece quando ninguém está olhando. A oração que você fez pelo amigo que precisa, a tristeza que sente ao ver o outro infeliz, a conversa que puxa com o garçom, o sorriso que manda para a criança, a gentileza que faz com um desconhecido.

Para deixar nossa marquinha nesse mundão, não são necessários holofotes. Daqui a um bom tempo, provavelmente não saberão quem fomos, o que fizemos, como vivemos. Não estaremos nos livros de história, nem nas homenagens da TV.

 

Mas não precisamos de plateia.

 

Não somos feitos de recordações passadas, nem de expectativas futuras. O que importa é o hoje, e cada “hoje” pode ser uma oportunidade para deixarmos nossa marca. Acredito que minha missão não é acabar com a fome nem trazer a paz mundial, mas sim dar o melhor de mim no meu dia a dia, buscando evoluir, respeitar o próximo, fazer o bem. Hoje.

 

A vida dos autores desconhecidos não é marcada por grandes feitos, mas por pequenos gestos diários. Dê valor a cada minutinho do seu precioso dia, e não espere a atenção dos espectadores para entrar em cena.


Você já está no palco.

 

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