Vai ter Copa, só não vai ter eu

Se continuar nesse ritmo, meu coração não aguenta não. Antes de Brasil x Chile eu tinha 25 anos, hoje completei 50. Cada minuto de jogo, menos um ano de vida. O campeão voltou, mas eu morri.


Até a final vou estar usando fraldas geriátricas, tamanho os abalos sísmicos do meu intestino. Sábado teve muita gente soltando rojão com surpresinha.


Que tensão, amigos!


O jogo começou com a torcida (eu) confiante, era 2 x 0 no bolão, bora Brasil! O gol saiu antes dos 20 minutos e eu tive certeza que o jogo era nosso. Mas vem o gol do Chile e a gente volta ao estado de descrença: porra Hulk, porra Felipão, esse time não dá, troca tudo, que que o Fred tá fazendo aí, Oscar de merda! Grito frases sem sentido tipo “Daniel Alves, seu cu de alface!”, mas no mesmo minuto já fico com peso na consciência, porque todo mundo faz cagada nessa vida: eu, você, minha impressora e o Daniel Alves. Minhas cagadas só quem recebe os e-mails com anexo esquecido vê, mas as do Dani têm plateia.


E essa plateia cobra mais que meu chefe, exige mais que meus pais. É gente que grita, xinga, mete o pau na seleção, mas é a mesma que chora de nervoso nos pênaltis e de alegria quando a gente passa pra próxima fase.


Nossa relação com a seleção é de amor e ódio, tapas e beijos, esperança e descrença. Não sabemos se amamos ou odiamos Marcelo, se queremos ou não queremos Hulk, e em uma mesma partida o Júlio César vai de mão de alface a herói.


Parece que esse povo heroico o brado retumbante é mesmo apaixonado por futebol.


O jogo foi ficando tenso e o puto do narrador (que não era o Galvão-pai-do-Neymar) falando mal da torcida, do time, e cada hora que ele dizia “situação complicada” eu sentia borboletas endiabradas na barriga. Nessa hora eu só queria o Galvão falando das aventuras do Laerte na novela das 9, amigos. Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé (VES, Cha) do que escutar tanta negatividade.


Mas lá vem a bunda e faz um gol! GOL do Hulk! O povo grita, comemora, vai a loucura. É TETRAAAAAAAAAAAAAAA! Eu estava sendo erguida como uma taça pelo meu noivo quando ouvi uma voz distante, tímida, dizendo: foi anulado.


Foi que nem tirar bigmac da mão de gordinho.


Aí a merda fedeu e merdelizou geral, o jogo e meu estômago foram pro saco. Rezei, fiz promessa, ajoelhei, não olhei, olhei, prorrogação, pênalti, David Luiz daviluizando e fazendo o primeiro gol dos pênaltis (BEIJO PRA VOCÊ, CABELEIRA), e aí vem ele, Julião, defendendo dois e fazendo a gente pedir desculpas por tudo.

A maioria dos pênaltis eu nem olhei, por amor ao meu coração (ao fígado eu já perdi). Mas o último, o decisivo, assisti ajoelhada em frente a TV, depois de ter prometido que ficaria 1 mês sem comer doce caso o Brasil passasse (onde estava com a cabeça: não sei).


Mas Deus é brasileiro e a trave também! Estamos nas quartas!


Sei que não sou referência quando o assunto é futebol, e este texto não tem a intenção de fazer qualquer comentário que faça sentido do ponto de vista futebolístico. Mas preciso compartilhar que, mesmo com todas as falhas, nunca gostei tanto dos jogadores da seleção. Seja pelas lágrimas ou pelos sorrisos, eles têm mostrado que a taça não é só sonho nosso, é deles também. Somos a seleção que se emociona com o hino e que chora antes dos pênaltis, e há quem diga que isso pode nos prejudicar em campo. Talvez. Mas prefiro ver garra, paixão e envolvimento emocional, que arrumação de meia.


Seguimos firmes e não-tão-fortes para as quartas de final. Mas se o próximo jogo for sofrido desse jeito: vai ter copa, só não vai ter eu.

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