Três pra casar

25.04.2014

Se você é do Rio de Janeiro, cumprimenta com dois beijinhos. De São Paulo, cumprimenta com um. Se você é de Brasília, três a cada cinco cumprimentos dão merda.

 

Para cumprimentar em Brasília, tem que ter controle emocional: você sabe como começa, mas nunca como termina.Tem que ter sexto sentido: sacar se o beijo unitário, sozinho e carente vai se transformar em dois, cheios de amor e suingue. Tem que ter gynga: se o cumprimento der errado, o importante é disfarçar – quando vou dar o segundo beijinho e não me vêem, fico pairando no ar como se fosse uma ave de rapina, com olhos bem abertos e pescoço pra frente.

 

Eu, particularmente, tenho uma posição política forte com relação a cumprimentos: defendo o partido do beijo único. Não é por vinte centavos, é pela uniformização dos cumprimentos em Brasília.

 

Mas aqui é democrático e cada um cumprimenta como quer. Vale um beijo, dois beijos, abraço, arrocha e capoeira.

 

Esse leque de opções costuma me proporcionar humilhação em praça pública, especialmente no trabalho. Pelo menos uma vez por dia erro na hora de cumprimentar algum colega. Beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é cumprimentar errado. Até beijo no ombro pro recalque passar longe eu já dei.

 

A cena é clássica: você chega para a reunião e encontra dezenas de pessoas sentadas, esperando um gesto afetuoso de sua parte. Você olha no olho de cada um e já sabe que os minutos seguintes não serão fáceis: bota a mão na cabeça que vai começar o rebolation, nega. Tento usar a linguagem corporal para indicar que sou menina de um beijo só, mas a maioria não percebe e parte pro segundo (só que neste momento eu já estou longe, olho pra trás e vejo um time de bochechas solitárias procurando abrigo no ar, disfarçando e fazendo a dancinha de pescoço do fat family). Minha vontade é voltar distribuindo um “vale segundo beijo” para ser usufruído quando quiserem, me redimindo.

 

A situação mais constrangedora é quando vão me dar aperto de mão e eu acho que é abraço. Opa! Tem uma mão no meu umbigo. Ou quando o cumprimento simplesmente não sai: você dá um beijo e a pessoa ia dar dois. Você volta atrás e tenta dar o segundo, mas agora ela não te quer mais. Você induz ela ao abraço e ela cede, mas o seu abraço era apertado e o dela sem amor. Você simplesmente não sabe o que ela quer de você, então vocês ficam nessa dança do acasalamento até alguém sair por desistência.

 

Os cumprimentos em Brasília refletem a mistureba de culturas que a gente tem por aqui. Na semana em que esta cidade linda completa 54 anos, percebo o quanto que Brasília vem criando sua própria identidade, mesmo que em alguns setores (como o dos cumprimentos) fique essa zorra danada. Tem oxi, tem guri, tem uai: é gente de tudo quanto é canto. Mas também tem tesourinha, zebrinha e agulhinha: vocabulário que é só nosso.

 

Como eu gosto de você, Brasília. De você eu não quero um nem dois beijinhos. Quero três pra casar.
 

 

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