Eu e o elevador

Na humilde opinião de um ser neurótico e tendencioso a pensamentos negativos como eu, o elevador é o perfeito quartinho para tirar meleca síndrome do pânico.


Vamos conferir se ele atende aos princípios da física quântica aplicada ao terror (lembre-se de subtrair do resultado final a soma da biles com as falanges externas da manga – extraindo o caroço de bode*).

*palavras jogadas aleatoriamente para ver se o leitor está prestando atenção.


Elevador é:

– Claustrofóbico ✓ – Sem saída ✓ – Terceiriza sua vida nas mãos de outrem ✓ – Detector de cravos, espinhas e anomalias diversas ✓ – Transportador de semi-conhecidos ✓ – Armazenador de puns ✓


Bingo! O elevador reúne tudo aquilo que pode dar uma balançada no meu (escasso) controle emocional.


Sempre evitei entrar em elevadores cheios, porque a ideia de ficar presa com muita gente ao meu redor me dá a plena certeza de que o ar, em algum momento, vai acabar. Vocês precisam entender que meus 1,50m de altura me dão uma visão completamente claustrofóbica do mundo. Se há algum baixinho não claustrofóbico lendo este texto, por favor, identifique-se na recepção, quero saber mais sobre você. Dentro do elevador lotado, minha altura é o encaixe perfeito entre o sovaco* de alguém e eu. Keep calm and reza pra não ter cecê.

*eleita em 2013 a palavra mais feia do Universo.


Mas todo esse medo de elevadores cheios teve de ser enfrentado quando entrei pra firma, porque eles estão sempre lotados. Lá a disputa para entrar no elevador é tão grande, que a gente nem verifica mais se o mesmo encontra-se parado neste andar: entramos com mesmo ou sem mesmo lá dentro.


No primeiro dia de trabalho, fiz charminho. Recusei dois elevadores semi cheios. No segundo, idem. Passei uma semana fazendo o estilo “sou legal, não estou te dando mole”, dando toco nos lotados. Apertava o botão de todos eles, mas não firmava compromisso com nenhum.

Na semana seguinte, porém, me vi lutando UFC com dois colegas de trabalho para entrar no elevador. Aprendi que se eu o recusasse, passaria eternidades esperando o próximo. No tempo em que esperava, pessoas eram promovidas, gerências eram destituídas, amizades eram rompidas, nenéns eram paridos, presidentes eram eleitos.


Recusar elevador cheio passou a ficar fora de questão.


A capacidade do elevador é para 8 pessoas. Quando sou a oitava a entrar, fico grudada com a testa na palavra Atlas e com o toba encolhido. Meu andar é o décimo nono, o que significa que passo alguns minutos respirando com a ajuda de aparelhos e evitando contato físico (mas outro dia minha orelha encostou nos mamilos de alguém).


Minha maior preocupação sempre foi ficar presa, mas como já diria Bial em Filtro Solar: “as encrencas de verdade da sua vida tendem a vir de coisas que nunca passaram pela sua cabeça preocupada e te pegam no ponto fraco às 4 da tarde de uma terça-feira modorrenta”. Pois bem, nunca fiquei presa no elevador da firma. Mas foi numa terça feira modorrenta que meu elevador caiu.


O elevador caiu comigo dentro, minha gente! Despencou uns 10 andares* de uma vez só. Foram 3 segundos de absoluto pânico nos meu órgãos internos, chega o intestino grosso agarrou o delgado. Se fora do ambiente de trabalho estivesse, provavelmente teria soltado a franga e gritado QUEPORRÉESSA. Mas fingi que tenho modos e apenas olhei para os lados tentando agarrar alguma coisa – não havia nada para agarrar. Segurei nas mãos de Deus e fui.

*a autora não está muito certa do que está falando.


O elevador parou, a porta abriu e eu perdi a linha saindo correndo num estilo muito semelhante ao daqueles monstros que saem das portas dos desesperados. Impressionei-me com as pessoas que continuaram ali dentro. Meu amigo, se um elevador que já despencou não é um pedido formal das divindades para que você o abandone na primeira oportunidade, eu já não sei o que é.


Depois do incidente acima, continuo frequentando diariamente os mesmos elevadores, e qualquer balançadinha eu já arregalo os olhos achando que vamos cair. Apesar do medo, fico feliz de ser obrigada a sentir um friozinho na barriga todos os dias.


Porque sim, sou cagona e tenho medo de quase tudo. Mas meu maior medo, definitivamente, é de não enfrentá-lo.

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