Início, meio e fim

Não tem montanha russa que me faça sentir mais frio na barriga do que um negócio chamado início de relacionamento. Deus não me deu coração para isso. Não tem como a gente pular essa parte e ir direto para o trigésimo almoço na casa da sogra aos domingos? Eu sou da roça, sei lidar com isso não.


Fico com taquicardia esperando uma mensagem – até que a Vivo me manda uma e eu taco fogo no celular –, planejo milimetricamente cada palavra dita no whatsapp.


Mentira, porque quando eu era solteira não existia whatsapp. Era entrar no msn e rezar pro bófi ficar online. Valorizem esse facilitador de relacionamentos instantâneo, amigos solteiros.


Primeiros encontros? Passo mal, ô coisa estressante. Primeiro encontro no cinema: a tensão já começa ao entrar no carro, porque ele veio te buscar em casa e você não faz ideia de como deve cumprimentá-lo. No nervosismo, acaba fazendo algum gesto sem sentido, como cumprimentá-lo com um beijo na orelha seguido de um tapinha no ombro. Merda.


No cinema as coisas são ainda piores, porque você deve se sentar de uma maneira despojada, mostrando naturalidade. Mas na realidade você está sentada igual a um filhote de ema com paralisia infantil, mal consegue mexer o pescoço. Durante todo o tempo você fica pensando em como facilitar o approach por meio da linguagem corporal, até que ele faz algum comentário sobre o filme e você é obrigada a dizer “HEHEHE”, já que não faz ideia do que esteja se passando na tela.


O beijo acontece e você espera que todos do cinema se levantem e comecem a cantar e bater palmas, mas a verdade é que você só consegue pensar se deve manter a cabeça parada ou virá-la para a esquerda. Nada é tão romântico como nos filmes.


A primeira vez que eu fiquei com meu namorado, por exemplo, foi em uma festa na casa de uma amiga, amiga esta que (com a ajuda do álcool) caiu de cabeça no chão. Ouvimos um barulho e a encontramos deitada sozinha na sala, com uma poça de sangue ao seu redor: se ela fizesse uma ponte eu ia jurar que era a menina de ‘O Exorcista’. Minha pressão baixou (não posso com sangue), fiquei sentada suando frio e vesga, semi-desmaiada. Meu namorado teve que cuidar da acidentada. E de mim.


Eu cheguei a ficar tão mal que em um momento de desespero anotei o número do telefone do meu pai na minha mão, só para meu namorado ter a quem pedir ajuda caso eu desmaiasse. Imagina: “Alô, tio? Então, você não me conhece, mas sua filha está desmaiada e sua amiga está jorrando sangue pela cabeça, tem como você dar um help aqui?”. Ainda bem que não foi preciso. Final da noite? Os três no hospital, assistindo à minha querida amiga levar pontos na cabeça ensanguentada cantando o médico. Romântico?


Até que um dia toda essa adrenalina do início de namoro passa e nós chegamos ao meio. Você se dá graças a Deus por não mais parecer uma Pateta na frente dele, mas ao mesmo tempo sente saudades do friozinho na barriga de outrora. Normal. Aqui você já não se maquia toda vez que vai encontrar com ele, confessa que já fez escova progressiva, come temaki na sua frente.


Aos poucos vocês vão ganhando intimidade, até que chega o grande dia. O dia divisor de águas no relacionamento. Dia em que as três palavras mágicas são pronunciadas: preciso fazer cocô. Os namoros deveriam ser divididos em a.C e d.C – antes do cocô e depois do cocô. As coisas mudam.


Uma vez o cocô posto em pauta, você acaba de se livrar de um dos assuntos mais embaraçosos de qualquer relacionamento, e daqui para frente é só alegria. A você casal amigo que nunca falou sobre cocô: não tenha medo. Libere todo esse cocô que há em você e seja feliz. Eu cago, tu cagas, ela caga. Tem jeito não! Quer mulher que não faz cocô, vá casar com a Sandy. Observação: os puns continuam proibidos.


De repente, os relacionamentos chegam ao fim. Alguns mais cedo, outros mais tarde, alguns por falta de amor, outros até por excesso. Alguns até que a morte os separe, outros até que a amiga fura-olho os separe.

Tem fins para todos os gostos. Levar um pé na bunda não é lá delicioso, mas que a gente aprende muita coisa, ô se aprende. Aprendemos a viver sozinhos, a sermos independentes. “É impossível ser feliz sozinho”? Balela. Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos: é nossa obrigação saber admirar nossa própria companhia. (Deus, estou falando isso, mas vê se não me deixa vovó gagá de fralda sem marido, tá?).


Depois de passar pelo início e pelo meio, esta crônica também chega ao fim. Sim, textos são como relacionamentos: início, meio e fim. Em ambos, temos que saber quando chega a hora de colocarmos o nosso ponto final.

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