O pior do ser humano está no supermercado

09.01.2014

Tem gente que gosta de ir ao supermercado. Sente prazer em passear pelas gôndolas, sentir o cheirinho de pão, paquerar o bofi do açougue. Psicólogo pra quê, se eu posso analisar mamões?

 

Mas infelizmente, caro amigo supermercólotra, esse não é o meu caso. Eu deixo para ir ao super quando a situação está preta: café da manhã virou pão de sal al dente, almoço virou miojo ao molho fungo e o jantar se transformou no consagrado risoto de ovinho vencido. Aí sim, chegou a hora.

 

Eu até que chego ao supermercado toda empolgada, dando uma olhada geral como se estivesse no shopping. Pego uns produtos que nem estão na lista, experimento umas amostrinhas de comida grátis (porque metade de mim é gordice e a outra é pobreza), leio os rótulos… Quando eu me pego procurando as calorias dos sabonetes, vejo que é hora de focar e começar a matar a lista. Mas quem morre primeiro sou eu.

Eu juro que encarno o Buda e vou toda disposta a fazer amizades e dançar no corredor de margarinas. Mas basta levar o primeiro carrinho no estômago que eu caio na real: não vai ser fácil.

 

O supermercado está dividido em dois tipos de pessoas: os que saem da sua frente e os que não.


Pessoas que param na sua frente e começam a encarar as bananas como se não houvesse amanhã. Pessoas que começam a conversar como se não estivessem me atrapalhando a pegar a maçã (dedico esse poema a minha mãe).

 

Uma das coisas que mais me irrita é a (minha?) dificuldade de encontrar alguns produtos. Já passei horas procurando farinha de tapioca, por exemplo. Fui no setor de farinhas: não era. Fui no setor de coisas estranhas e não identificadas: não era. Aí você começa a se estressar e procura tapioca entre os xampus, no meio dos peixes ou do lado do peito de peru (afinal, tapioca fica boa com peito de peru). Mas nada. Resolve perguntar pra alguém, mas esse alguém não trabalha no supermercado, e aí seu dia fica bom de vez.

 

Fui encontrar a tapioca no setor de verduras, do ladinho das abóboras – o convencional local de se guardar tapiocas, claro.

 

Mas a verdadeira experiência antropológica do supermercado é a fila. Da última vez peguei uma enorme, que ia do setor de legumes até a casa do Neymar em Barcelona. Era dia de promoções e tinha muita, mas muita gente. Eu estava tranquila, porque tinha meu celular e com ele podia tudo. Mas a bateria acabou. Pânico. Mariana está sem celular, corram pras montanhas.

 

Nesse momento vi que não me restava nada a não ser observar as pessoas. E foi aí que comecei a escrever este texto, no papel do exame médico que estava em minha bolsa desde 1996.

 

Fila é que nem consultório psiquiátrico, dá pra traçar o perfil de todo mundo. Tem o que começa a fazer amizades e piadinhas (adoro, pelo menos me distrai). O piadista da vez era um senhor de mais ou menos 60 anos, que estava na minha frente e começou a gritar para o caixa: “Açulééra! Açulééra! Se eu chegar depois das 22h em casa minha mulher me bate! Açuléééra que eu não quero apanhar!”.

 

Há também os metódicos, que a gente já vê pelos carrinhos.

 

Meu carrinho: berinjela junto da pasta de dente, iogurte em cima do feijão, desodorante coladinho na alface. Carrinho dos metódicos: tudo separado por cor, tamanho, categoria e afinidade. Olha, Bial, essa semana eu vou colocar o arroz ao lado do feijão por uma questão de afinidade mesmo.

 

O problema dos metódicos é que eles ficam horas no caixa, conferindo preços, organizando sacolas, arrumando o carrinho como se fosse um quartinho de bebê… “Açulerar” não é com eles não.

 

Mas o tipo que mais me apavora é o bravo. E ele teima em cair atrás de mim, sempre. É o que começa a reclamar de quem está demorando, conferir quem trouxe produtos sem código, organizar a fila. Vai me dando desespero: abro a carteira e confiro se trouxe o cartão de crédito, senão o Zé Esquentado me mata em praça pública.

 

Mas eu trouxe.

 

Peraí, será que eu trouxe mesmo? E aí eu entro num ciclo sem fim de abrir a carteira – ver o cartão – guardar a carteira – abrir a carteira – ver o cartão de novo – guardar a carteira. O desespero é tanto que eu começo a tentar fazer amizade com o bravo, para se acontecer algo em minha vez, ele me perdoar.

 

Entendo a boa intenção dos bravos de fazer a fila andar logo, provavelmente estão cansados, querem ir pra casa, etc. Só que eu também quero. Eu também tive um dia ruim, eu também estou com pressa, e meu dedo mindinho do pé já não responde mais. Mas não precisamos deixar o ambiente do supermercado tão pesado.


Li uma crônica da Martha Medeiros que dizia: “muita gente se preocupa em ser magro, mas não se preocupa em ser leve”. Você olha o carrinho do cidadão e está cheio de barrinha de cereal, arroz integral e aveia. Mas ele nunca vai conseguir ser light. 

 

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