Pareço burra, mas sou mesmo

Inteligência é relativa.


Eu, por exemplo, tenho os meus 5 minutos (ou mais) de burrice diariamente. É quando tento abrir a porta de casa apertando o alarme do carro, ou não paro de apertar os desgraçados dos interruptores quando a luz acaba. Também quando esqueço repentinamente como se escreve, sei lá, omelete, ou procuro pela casa inteira os óculos que estão em minha cabeça. Aliás, já passei meses procurando o controle remoto da TV quando descobri que havia o colocado dentro de uma bolsa minha, SABE DEUS O PORQUÊ.


O que é ser inteligente, afinal? É ter raciocínio rápido? Ter bom relacionamento com pessoas? Capacidade de se adaptar a mudanças? Conseguir entrar/sair do carro portando um guarda chuva sem se molhar? É saber muito sobre algo, ou saber um pouco sobre tudo? É tirar 10 na prova? Conseguir lembrar se tomou o infeliz do remédio?


Para mim, inteligente é quem assume sua burrice.


É quem sabe rir de suas idiotices, se chama de Burraldo, não tem vergonha de assumir seu lado Antânia de ser.

Quem nunca pegou o celular para olhar as horas, guardou ele no bolso e ainda não faz ideia de que horas são? Ou saiu do banho para pegar um sabonete novo, deixou o sabonete em cima da pia e voltou ao chuveiro SEM SABONETE? Ou entrou em um cômodo aleatório da casa e se perguntou, com cara de jegue: QUE DIABOS EU VIM FAZER AQUI MESMO? Comigo também acontece um fenômeno estranho, que nem Padre Quevedo explica: eu lembro de alguma coisa ruim, do tipo “tenho que lavar a louça” ou “acho que deixei a chapinha ligada”. Aí passa um tempo e eu esqueci qual foi o pensamento ruim que tive, mas fico com a sensação que eu deveria estar triste, porque há pouco lembrei de algo (o que era mesmo?!) ruim. E aí fico o dia com o nó na barriga, sem saber por quê. Prazer, Mariasna.


Tenho um parente, por exemplo, que é uma pessoa inteligente, estudada, quase que um Google em forma de pessoa. Pois eis que foi flagrado na porta de casa com a cueca por cima da bermuda. Sim, eu um ato de distração, ele vestiu primeiro a bermuda e depois a cueca. E por muito pouco não saiu de casa como o super-homem versão alzheimer.


O que é a inteligência, então? Lembrar que a cueca vem primeiro?


Inteligência não consiste em vomitar verdades absolutas por aí. Ela é um ponto de equilíbrio, está justamente no não extremismo, no não apontar de dedos. Inteligente é quem respeita a opinião alheia. Quem não banca de dono da verdade. Ter opinião é sempre bom, mas saber ouvir é melhor ainda.


“A vantagem de ser inteligente é que podemos fingir que somos imbecis, enquanto o contrário é completamente impossível” (Woody Allen). E não é? Tem gente que está mais preocupado em se mostrar inteligente, do que ser, de fato. Pessoas inteligentes são afrodisíacas, charmosas e certamente mais interessantes. Mas o efeito passa a ser o contrário quando a suposta inteligência é usada para se auto afirmar, a ponto de não reconhecer seus próprios defeitos e se julgar melhor que os outros.


Não há mal nenhum em assumirmos nossas burradas. Aliás, vi por aí que “99% das pessoas são burras. Felizmente, eu faço parte dos outros 2%”.


Inteligência é relativa.

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