Se meu GPS falasse

29.11.2013

Senso de direção: não tenho. Capacidade de interpretar mapas: cuma? Controle emocional: desconheço. Cadê a entrada? Já passei.

 

Quando eu nasci, Deus disse: desce e vire à direita. Se não eu estaria no útero até hoje procurando a Avenida da Pepeca.

 

Conhecendo esse meu dom de ir parar na Bolívia e não no destino escolhido, no fim de semana passado acionei o GPS para ir à casa de uma amiga. Eu já tinha ido lá uma vez, mas com outra pessoa dirigindo. E outra pessoa dirigindo = passar pelo Obama dançando o show das poderosas e não notar.

 

Só que eu e um GPS não trabalhamos em grupo.

 

Sou do bonde das idosas sem freio, que prefere perguntar para as pessoas da rua as coordenadas. A resposta é sempre algo como: “vai reto, pega a primeira direita, desce no balão e lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore”.

Ok, mais pra frente perguntamos de novo.

 

Mas nesse dia já era tarde e eu não queria me arriscar. Acionei logo o GPS do celular e fui feliz da vida, perguntando-me por que eu não o utilizava mais vezes. Ele falava e eu obedecia, em uma relação de submissão e respeito mútuo. Notei que ele me mandava para umas ruas desertas e completamente desconhecidas, mas pensei: esse cara é bom mesmo, já descolou um caminho alternativo e mais curto.

 

Só que a coisa foi ficando estranha. Fui me afastando da civilização e me aproximando de um lugar mais vazio que minha barriga ao meio dia, mais sombrio que minha geladeira no domingo.

 

Resolvi olhar pra tela do meu aparelho, e vi que o alvo havia mudado (!!!). O GPS estava me levando para um lugar que eu não sabia nem se era na América Latina, meu amigo.

 

Eu. Consegui. Mudar. O. Destino. Do. GPS.  Quantas curtidas merece essa guerreira?

 

Na verdade, acredito que as pessoas não-tecnológicas possuem poderes divinos com os equipamentos. Minha mãe quando vai tirar uma foto minha, por exemplo: se Deus transforma água em vinho, ela transforma foto em vídeo. Sempre. Pois eu, Mariana, descobri que com o poder da mente posso alterar destinos no GPS.


Vou até divulgar cartazes esotéricos: MUDO O SEU DESTINO EM 5 MINUTOS.

 

No momento em que eu percebi a cagada, minhas pernas adquiriram parkinson e minha cabeça alzheimer, porque era burrada atrás de burrada. Eu estava tão racional que parei meu carro no meio de duas vias, assegurando que carros vindos de qualquer direção pudessem bater no meu. Sorte que a última vez que alguém passou por ali foi Oscar Niemeyer na inauguração de Brasília, em 1960.

 

Se meu GPS falasse, certamente diria: “Vou ter que recalcular essa merda toda!”. Pois bem. Recalculamos e fomos.

 

Fomos tão desesperados que passei por uns três quebra-molas sem frear, e o GPS pensando: “Só falta essa mula furar o pneu aqui”. Eu estava vendo a hora dele falar: “Vire na próxima direita e já fique por lá, Exu”.


GPS, me perdoe, mas eu não consigo me relacionar bem com você.

 

Você me pede para virar à direita em 180 metros. Minha vontade é sair do carro com uma fita métrica, porque nem 10 centímetros eu sei o que são.

 

Mas graças a você (e doze ligações + três paradas no posto + 5 abordagens a desconhecidos + 20 tentativas e erros), cheguei ao meu destino final.

 

Destino, destino, destino.

 

Nunca sabemos o que é obra dele e o que somos nós que traçamos.

 

O que eu sei é que, mesmo sem querer, podemos alterar a nossa rota.

 

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