De cintos atados

Eu não tenho medo de avião.


Isso até a primeira turbulência, em que eu começo a discretamente memorizar as instruções de segurança da aeronave. A turbulência é o divisor de águas, o momento em que me despeço daquele ser tranquilo e confiante que entrou no avião e começo a protagonizar cenas de O exorcismo de Emily Rose.

No mês passado, passei por momentos entre a vida e a morte no avião. Pelo menos foi assim que uma cagona, como eu, encarou a situação.

Eu e meu namorado estávamos voltando de viagem, chegando a Brasília depois de umas nove horas no avião da TAP. É quando você já começa a tentar re-encaixar o pezinho de elefante nos sapatos, sonha com o momento em que o sangue volta a circular e a bunda a existir.


Mas durante a descida, o avião entrou naquele que seria o período de turbulência mais longo da aviação brasileira. Já passei por diversas turbulências, mas juro que nunca tão forte quanto esta. O avião dava aquelas mini quedinhas, que eu chegava a ficar preocupada do meu estômago ir parar na poltrona da frente. Alô, galera, alguém viu meu pâncreas? Cada queda era um grito. Gritaram mulheres, velhinhas, e um homem (que deve estar até agora procurando sua dignidade debaixo do assento flutuante).


Eu não gritava, porque em momentos de tensão eu costumo me borrar fechar os olhos e ficar em posição fetal esperando pelo pior, sem emitir nenhum tipo de som. O que eu fazia era olhar para os lados procurando a luz no semblante de alguém tranquilo, mas tudo o que eu vi foi uma velhinha rezando, uma mulher vomitando e meu namorado segurando a sacolinha SOS náusea. Ele estava naquele momento em que bastava eu perguntar “que foi?” pro jato de vômito vir com força suficiente para atravessar continentes, na intensidade de um tsunami.

Neste dia, percebi que quanto maior a tensão, maior o cheiro de pum no ar. Não sei se a galera pensa “vamos todos morrer mesmo” e libera a fragrância de pumomila, ou se o medo desarranja o intestino. Sei que aquela aeronave estava podre, meu amigo, era um cocô voador. De certo alguém ainda deixou uma porção de nutella no assento.


A turbulência continuou e o avião foi descendo, até que chegou mais perto do solo e… arremeteu. A partir daí, qualquer barulho era uma tragédia em potencial.


A turbina acelerava e eu via a cena do meu enterro, me perguntando quem estaria chorando. O motor “parava” e eu imaginava a foto do meu perfil do Facebook estampada na Veja, em uma capa escrito “Luto”. O bagageiro tremia e eu via o Fantástico reconstituir o acidente, com participação especial do Dr. Bactéria.

Foi aí que começou a pingar uma goteira na minha perna direita, o que a paralisou imediatamente e eu tive certeza que o avião iria cair.

Fechei os olhos e comecei a rezar.


Voltamos a descer e o avião, contrariando todas as (minhas) expectativas, pousou. Os passageiros começaram a bater palmas, eufóricos. Um gritou: “Aêêê, Portuga” pro piloto (que era português, da TAP); o outro soltou um: “Parabéns, Manoel!”.


E assim, sobrevivemos: como bons brasileiros, que ainda sabem encarar com bom humor momentos de desespero. Ainda bem.

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